

Vivemos num tempo em que tudo o que se diz ou se posta vira ato político, e discordar passou a ser sinônimo de inimizade. Basta abrir as redes sociais para ver a guerra montada em quase toda caixa de comentários. Amizades de infância se acabam por causa de um posicionamento político. A mesa de domingo, que antes era só risada em família, virou campo minado.
O que mais dói é ver que o Corpo de Cristo, comprado a preço de sangue no Calvário, muitas vezes reproduz as mesmas divisões mesquinhas de um mundo sem Deus.
Sou pastor da Assembleia de Deus, e minhas raízes teológicas estão fincadas no solo pentecostal. Depois de muito estudo das Escrituras, abracei a teologia arminiana e a perspectiva dispensacionalista. Não são convicções herdadas de qualquer jeito: foram sendo forjadas ao longo do tempo, entre dúvidas, perguntas e muita leitura.
Ao mesmo tempo, tenho amigos preciosos, irmãos de fé genuína, que pensam diferente de mim. Muitos são calvinistas, pactualistas ou vêm de outras tradições históricas. A gente debate? Debate. Discorda em pontos secundários? Com certeza. Mas nenhuma divergência teológica jamais rompeu o laço do amor fraterno entre nós.
Ter convicção não exige ser faccioso, e pensar diferente não obriga ninguém a se separar.
NÃO FAÇA NADA POR PARTIDARISMO
O apóstolo Paulo escreveu aos filipenses uma exortação que precisa ser analisada com urgência nos nossos corações:
“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.” (Filipenses 2:3)
A palavra traduzida como “contenda” (no grego, eritheia) carrega o sentido direto de ambição egoísta, partidarismo e rivalidade de facção. Como observa o comentarista Grant Osborne, o termo descreve o desejo egocêntrico de dividir o grupo para alcançar poder pessoal, alimentado pela “vaidade orgulhosa” (kenodoxia), uma busca vazia por glória que se autopromove e destrói o coletivo.
Com o tempo, a palavra ganhou um tom depreciativo, o de ambição mercenária. Era o retrato do político ou do líder que recruta cabos eleitorais e monta facções em benefício próprio. Não se trata apenas de discordar: é agir com espírito de competição partidária (“De que lado você está: do meu ou do dele?”). É a velha política infiltrada na alma. Hernandes Dias Lopes lembra que a vanglória tenta usurpar o lugar de Deus para estabelecer um status egoísta, o que logo nos leva a desprezar o próximo e a aniquilar a vida em comunidade. Veja como ele resume o perigo dessa mentalidade facciosa:
“A palavra grega eritheia, traduzida por ‘partidarismo’, é o resultado do egoísmo. […] A palavra eris também traz a idéia de competição para receber o apoio de outros. Assim, em vez de perguntarem: ‘Você já aceitou Cristo?’, perguntavam: ‘De que lado você está, do nosso ou do de Paulo?’.” (2007, p. 108-109)
Na esfera política ou na eclesiástica, a dinâmica é a mesma. A pergunta deixa de ser “Como serviremos ao próximo e honraremos a Deus?” e vira “Você veste a minha camisa ou é meu inimigo mortal?”. O partidarismo nos faz defender o nosso grupo acima de tudo, mesmo quando isso nos afasta da vontade de Deus.
O TRISTE EXEMPLO DE CORINTO
Essa doença não é privilégio do século XXI. Na primeira carta aos Coríntios (1Co 1.10-13), Paulo confronta uma igreja carismática, cheia de dons espirituais, mas moralmente imatura e tomada por divisões causadas pelo partidarismo.
Os crentes de Corinto tinham virado torcidas organizadas. “Eu sou de Paulo”, dizia um. “Eu sou de Apolo”, dizia outro. “Eu sou de Cefas”, afirmava um terceiro. E os mais presunçosos diziam: “Eu sou de Cristo”, usando o próprio nome do Salvador como bandeira de exclusivismo. Paulo não estava repreendendo o apreço legítimo pelos líderes, mas o espírito de facção que rachava o corpo e que se refletiria até na reunião da Ceia, no capítulo 11.
A pergunta de Paulo aos coríntios continua viva: “Acaso Cristo foi dividido?”. Quando nos apegamos mais a uma ideologia humana, a um pastor ou político da mídia, a uma vertente teológica ou a uma sigla partidária do que à pessoa de Jesus Cristo, passamos a dividir a mesma vergonha de Corinto. Não podemos permitir que nossas preferências, políticas ou teológicas, separem o corpo de Cristo.
A MENTE DE CRISTO
Qual é o remédio? O próprio texto de Filipenses responde, e dá para resumir em poucas palavras: descer do pedestal. Osborne ressalta que Paulo contrapõe essa arrogância mundana com a virtude da humildade (tapeinophrosynē), que literalmente significa ter uma “mente humilde”. É a postura de quem se enxerga como servo diante das pessoas ao redor e as coloca acima de si mesmo.
Essa postura não é complexo de inferioridade nem uma teoria inalcançável. O erudito Gordon Fee enfatiza que a narrativa da encarnação de Jesus em Filipenses 2.5-11 é o modelo prático da mentalidade do evangelho: Aquele que era Deus não se apegou a Seus privilégios, mas esvaziou-se e humilhou-se até a morte de cruz para que fôssemos salvos. Como Fee reforça, o amor cristão só funciona na prática quando se fundamenta no caráter de Deus. Dele nasce uma humildade de mente que coloca as necessidades dos outros antes das nossas, e isso dissipa murmurações e intrigas. O comentarista Warren Wiersbe sintetiza essa mudança radical de perspectiva:
“Creio que foi Andrew Murray quem disse que ‘a pessoa humilde não faz pouco de si mesma; simplesmente não pensa em si mesma!’ A humildade é a graça que perdemos quando descobrimos que a possuímos. […] Os ‘outros’ são o elemento-chave deste capítulo (Fp 2:3, 4); os olhos do cristão não estão voltados para si mesmo, mas sim para as necessidades dos outros.” (2006, p. 94-95)
Para Wiersbe, Filipenses 1 ensina que Cristo vem em primeiro lugar, e Filipenses 2 coloca o próximo logo em seguida. Por isso, não há como experimentar a verdadeira alegria cristã enquanto insistirmos em nos colocar acima do nosso irmão.
A FAMÍLIA, OS AMIGOS E A MESA
Em tempos de eleição, essa febre partidária que racha comunidades se agrava de forma assustadora. Vemos irmãos permitindo que ideologias humanas afastem pais e filhos, destruam casamentos e envenenem até os grupos de oração de muitas igrejas. Exercer a cidadania e votar com base em princípios bíblicos é dever moral de todo cristão consciente. Mas nenhum partido político desceu da glória, e nenhum candidato terreno foi pregado numa cruz para pagar pelos seus pecados. O Reino de Deus não é de direita nem de esquerda: ele transcende as estruturas terrenas e coloca todas elas na balança do seu juízo.
O Evangelho de Cristo é absolutamente intransigente com o pecado, e a Palavra jamais negociará a verdade. Mas Jesus nunca nos autorizou a tratar o próximo com soberba, cancelamento ou rancor. Se a sua preferência eleitoral fez você parar de falar com sua mãe, ou se a sua convicção teológica fez você desprezar o irmão que se senta ao seu lado na igreja, há algo profundamente doente na sua espiritualidade. O partidarismo é obra da carne (Gl 5.20); a unidade no Espírito é fruto da maturidade cristã.
UM CONVITE À MATURIDADE
Dizer não ao partidarismo não significa abrir mão da verdade, calar a voz profética da igreja ou cair num ecumenismo vazio e relativista. Significa, antes de tudo, ter a coragem de imitar a mente de Cristo: despir-se da arrogância de querer vencer todo debate no grito e aprender a servir em amor.
Que nem nós nem as nossas igrejas sejamos moldados pelo algoritmo do ódio das redes sociais ou pelo cinismo das disputas políticas, mas pelo sopro santificador do Espírito Santo. Que saibamos discordar com graça, defender nossas convicções com mansidão e, acima de qualquer debate passageiro, guardar com zelo a unidade da fé no vínculo da paz. As eleições passam, as legislaturas vão terminar, e os debates teológicos encontrarão na eternidade as suas respostas definitivas. Só o amor de Cristo jamais acabará. Não troque o seu relacionamento com as pessoas, nem a oportunidade de manifestar Cristo, pela satisfação de ter razão na política ou na teologia. Não vale a pena! Cristo supera e ultrapassa todas essas coisas.
Que o Espírito Santo nos dê graça para vivermos o evangelho e termos em nós a mesma atitude de Cristo: esvaziar-nos de nós mesmos e do nosso ego e entregar a vida em favor do outro. Deus abençoe a cada um!
Pr. Anderson Fábio da Silva
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon D. Filipenses: comentário exegético. Tradução de Marcelo Gonçalves. São Paulo: Vida Nova, 2022.
LOPES, Hernandes Dias. Filipenses: a alegria triunfante no meio das provas. São Paulo: Hagnos, 2007.
OSBORNE, Grant R. Filipenses: comentário expositivo. Tradução de Ítalo Medeiros; revisão de Joelson Gomes. São Paulo: Editora Carisma, 2024.
WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo: Novo Testamento: volume II. Tradução de Susana E. Klassen. Santo André: Geográfica Editora, 2006.