

A educação cristã não é sinônimo de transmitir informação bíblica. É formação integral, do espírito, da mente, das emoções, do corpo e da vida social, segundo o padrão que Jesus deixou ao ensinar. Ele ensinava em qualquer lugar, envolvia-se com quem aprendia, atingia coração e intelecto ao mesmo tempo, e formava discípulos, não apenas ouvintes. Esse continua sendo o alvo de qualquer proposta séria de educação cristã: gente que se pareça com Jesus, não gente que apenas saiba sobre ele.
O Cenário Atual e os Riscos de Estagnação
A pós-modernidade líquida torna tudo provisório, inclusive convicções que antes pareciam inegociáveis. A secularização esvazia a religião de influência pública e, tentando reagir, parte do Brasil evangélico cai na armadilha oposta: ideologiza o evangelho, mistura política com fé de um jeito que o apóstolo Paulo chamaria sem hesitar de “outro evangelho”. E há ainda os desigrejados, algo como 25 milhões de brasileiros que decidiram viver a espiritualidade fora de qualquer comunidade, um contingente que a Escola Dominical não pode ignorar nem tratar com desprezo.
A educação cristã tem a tarefa de fazer uma análise crítica e sincera sobre a sobrevivência do ensino bíblico. Nesse contexto, três riscos principais rondam a Escola Dominical: a mumificação (manter estruturas e métodos arcaicos), a substituição (trocar o ensino sistemático e os modelos que deram certo por formas que não priorizam a formação bíblica profunda) e o abandono (resultado de uma má experiência pedagógica e administrativa).
A Essência e os Fundamentos da Educação Cristã
A educação cristã é um processo que busca desenvolver o ser humano em sua totalidade: espiritual, intelectual, emocional, social e físico. Ela não é apenas uma preparação para a vida, mas a própria vida em movimento, onde o aluno é o protagonista de sua transformação e o professor atua como um guia.
A fundamentação está na “Grande Comissão” (Mateus 28:19-20), orientação na qual Jesus destaca que o ensino é inseparável do evangelismo, seguindo seu exemplo, como o mestre por excelência, cujo método era criativo, relacional e focado tanto no coração quanto no intelecto. A educação cristã, portanto, deve ser disruptiva e regenerativa, buscando a conformação do indivíduo à imagem de Cristo.
A Identidade Pentecostal e o Papel do Espírito Santo
No ambiente pentecostal, essa formação tem um ingrediente que não pode ser negociado: o papel do Espírito Santo, que inspira quem ensina e ilumina quem aprende. E isso precisa ser dito sem rodeios, porque há um movimento silencioso, dentro do próprio meio pentecostal, de adoção acrítica da chamada cosmovisão cristã de matriz reformada, coerente em muitos pontos, esteticamente sedutora, mas que deixa de fora justamente a experiência e a afetividade que caracterizam a fé pentecostal. Teólogos pentecostais têm abraçado essa cosmovisão com entusiasmo e, sem perceber, promovido uma espécie de despentecostalização do próprio pentecostalismo. Educar sem o Espírito Santo como protagonista, na inspiração do professor, na iluminação do estudante, no dom de ensinar distribuído a muitos, é produzir informação, não formação.
Desafios Contemporâneos: Pós-Verdade e Tecnologia
A educação cristã enfrenta hoje o analfabetismo bíblico, onde a Bíblia é reverenciada, mas pouco lida ou compreendida, e a cultura da pós-verdade, onde narrativas ideológicas e fake news frequentemente substituem a verdade factual. Outro desafio é a sociedade do desempenho, que gera indivíduos ansiosos e exaustos.
Sobre a tecnologia, o professor deve deixar de ser o depositário do saber para se tornar um curador do conhecimento. O celular e a Inteligência Artificial não devem ser vistos apenas como ameaças, mas como ferramentas que, se usadas com ética e sabedoria, podem potencializar o aprendizado. No entanto, alerta-se que a tecnologia nunca substituirá a presencialidade do amor e o contato humano essencial para a comunhão.
O Futuro da Escola Dominical e a Integralidade do Ser
Diante desse quadro, a tentação é escolher entre dois erros: agarrar-se ao passado com nostalgia fundamentalista ou correr atrás de qualquer novidade sem discernimento. O caminho mais honesto é outro: pensar a educação cristã a partir de três eixos: ciência, sociedade e espiritualidade, e mirar num modelo que seja, ao mesmo tempo, moderno, humano, inclusivo, digital, espiritual e holístico. Isso exige professores dispostos a deixar de ser a única fonte da aula pronta para se tornarem provocadores do aprendizado, usando criatividade, tecnologia e até inteligência artificial como ferramentas, não como ameaças. A tese aqui é simples: a inteligência artificial não vai substituir professores; os colegas que souberem usá-la é que vão substituir os que não souberem. O mesmo vale para as artes e a ludicidade, tantas vezes tratadas com suspeita no meio evangélico, quando na verdade são presente da criatividade divina e caminho legítimo para um conhecimento que a razão sozinha não alcança.
O ponto culminante da educação cristã do futuro é a formação de discípulos que vivam a tensão entre o “já agora” e o “ainda não” do Reino de Deus. Isso implica em uma educação que promova a compaixão, a justiça social e a preservação ambiental como frutos naturais da fé.
Conclusão: O Mandamento Superior
O ápice de todo esforço educativo cristão é o amor. Sem o amor, o ensino torna-se ideologia ou legalismo. A educação cristã do futuro será bem-sucedida se conseguir formar pessoas que, ancoradas na verdade bíblica, saibam amar a Deus e ao próximo em um mundo cada vez mais fragmentado e impessoal.
A relação entre a Escola Dominical e a identidade pentecostal assembleiana não tem conclusões fechadas, mas perguntas: se o passado e o presente da Escola Dominical foram bons, cabe melhorar ainda mais; se deixaram a desejar, cabe corrigir o que for possível.
A Educação Cristã é chamada à disposição de olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo: para dentro, questionando práticas e cosmovisões que a própria tradição pentecostal naturalizou; para fora, dialogando sem medo com sociólogos, filósofos, pedagogos e pesquisas que boa parte da literatura devocional evita citar.
Pr. Claiton Pommerening
Doutor e mestre em Teologia pela Faculdade EST. Graduado em Teologia e Ciências Contábeis. Diretor e professor de Teologia na Faculdade Refidim; Diretor do Colégio CEEDUC. Ganhador do prêmio Areté 2025: Livro do Ano.
Professor visitante FAECAD, FAESP e FCC. Editor da Azusa Revista de Estudos Pentecostais; Editor executivo da Revista REPAS/CPAD. Avaliador institucional do INEP/MEC. Membro fundador do GEP – Grupo de Estudo do Pentecostalismo da Faculdade Refidim. Autor de livros e de revistas da Escola Bíblica Dominical Adultos da CPAD. Pastor auxiliar na Assembleia de Deus em Joinville (SC). Casado com Thaís Andréa; pai de Letícia Nicolle e Thaíne Saloá.
