

Dar aula na igreja não é simplesmente contar histórias bíblicas, repetir conteúdo da revista ou correr para “fechar” as treze lições do trimestre. Na Escola Bíblica Dominical, ensinar é lidar com gente de verdade, com dúvidas reais, com fé em formação. E, se é assim, o papel do professor não pode ser reduzido a falar bem ou preencher o tempo da aula. Ele precisa saber que está ali com um único propósito: para servir ao aprendizado do aluno, ajudando a verdade bíblica a sair do papel e alcançar a vida.
Num tempo em que a atenção está cada vez mais fragmentada e as novas gerações vivem cercadas por estímulos e distrações, ensinar bem na EBD deixou de ser um capricho pedagógico, tornou-se sim uma necessidade. Quem assume esse ministério precisa levar a sério não apenas o conteúdo que ensina, mas também a forma como ensina. Isso exige abandonar de vez aquele modelo cansado em que o professor fala sozinho e a classe apenas escuta, quase sempre em silêncio, como se presença física fosse sinônimo de aprendizado. Temos que lembrar que as pessoas não são obrigadas a nos ouvir e precisam de estímulos para manter a atenção e assim, de fato, aprender.
Ensinar não é despejar informação na cabeça do aluno, mas conduzi-lo ao aprendizado. O professor não é um distribuidor de conteúdo; é alguém que orienta, desperta, provoca, ajuda o outro a compreender. Como Myear Pearlman mesmo escreveu:
“O verdadeiro ensino não consiste meramente em o professor contar coisas aos alunos, mas, sim, em guiá-los à aquisição da verdade por si mesmos. Ensinar é estimular e guiar o aluno a aprender.” (PEARLMAN, 1995, p. 7)
Essa definição muda bastante coisa, pois ela desloca o foco da aula, o centro deixa de ser o desempenho do professor e passa a ser aquilo que o aluno de fato entendeu, assimilou e consegue levar para a vida. Em outras palavras: ensinar bem não é falar muito sobre a Bíblia, mas ajudar o aluno a aprender a verdade bíblica de modo que ela molde seu pensamento, sua conduta e sua fé. O professor deve se preocupar se o aluno está aprendendo, pois ele pode ser a pessoa com mais conhecimento do assunto, mas sem se esforçar para mudar seus métodos para que o aluno aprenda, seu conhecimento teórico não o ajudará em nada.
Quem para de aprender, para de ensinar
Uma boa aula começa antes da sala, começa no preparo do professor. E aqui vale dizer o óbvio: ninguém ensina com consistência aquilo que não conhece de verdade.
Quando o professor chega à classe tendo apenas dado uma lida apressada na revista ou com um conhecimento raso do texto bíblico, isso aparece na insegurança, na superficialidade, nas respostas vagas, na incapacidade de aprofundar uma pergunta simples. A verdade bíblica precisa primeiro passar pelo professor — ser estudada, mastigada, compreendida, aplicada ao coração — antes de ser levada à igreja. Não há como levar a vida da palavra se esta não foi gerada primeiramente naquele que está ensinando.
Mas conhecer o conteúdo não é apenas acumular informação. Não se trata de decorar versículo ou repetir conceitos. O professor da EBD precisa permanecer em crescimento, precisa continuar aprendendo. Howard Hendricks foi muito feliz quando escreveu:
“Se você parar de crescer hoje, parará de ensinar amanhã. E não importa se você tem dez, vinte ou trinta anos de experiência, no momento em que você deixa de aprender, deixa de ser um canal eficaz de ensino.” (HENDRIKS, 1991, p. 15)
Essa é uma advertência importante, pois há professores experientes que, por já terem dado muitas aulas, correm o risco de entrar no automático. Ele apenas repetem fórmulas, reciclam anotações antigas e, aos poucos, vão deixando de se colocar na posição de aprendizes. Isso é fatal para o ensino cristão, pois a excelência na EBD não se sustenta com o que aprendemos anos atrás, mas com a disposição de continuar estudando hoje.
Esse preparo envolve, pelo menos, três frentes:
Quando uma dessas três dimensões é negligenciada, a aula sofre, e, em muitos casos, o que chamamos de “falta de resultado” é apenas falta de preparo.
Presença física não é aprendizado
Um dos erros mais comuns no ensino da igreja é achar que, porque a sala está cheia e os alunos estão sentados, a aula está funcionando. Não está necessariamente! Estar presente não é o mesmo que aprender, pois o aluno pode ouvir a lição inteira sem realmente prestar atenção, sem processar o que foi dito e sem guardar quase nada do que ouviu.
Por isso, uma das tarefas centrais do professor é conquistar o coração do aluno e manter a atenção da classe. E isso não se resolve apenas com carisma, espontaneidade ou bom humor. O interesse do aluno não nasce do improviso; ele é, em grande parte, fruto de planejamento. Quando a aula parece desconectada da vida real, o aluno se desliga. Ele pode até estar olhando para o professor, pode até abrir sua Bíblia no texto indicado, mas internamente já saiu da sala. O corpo está ali, mas a mente está em outro lugar. O que fazer?
O professor precisa estar ciente que a aula precisa ter direção. Precisa saber com clareza o que deseja que seus alunos aprendam, sintam e pratiquem ao final daquele encontro. Sem isso, o ensino vira uma exposição dispersa de informações religiosas. E não é este o propósito da Escola Bíblica Dominical. Não é fazer pessoas conhecedoras da teoria, mas pessoas transformadas pelo Espírito Santo.
Também é importante lembrar que comunicação, em sala de aula, não acontece de verdade quando só uma pessoa fala. Precisa haver diálogo e o aluno precisa deixar de ser apenas ouvinte e se tornar participante, perguntar, responder, relacionar, pensar, discordar, procurar o texto, formular uma conclusão, pois tudo isso faz parte do processo de aprender. Aula em que o professor faz tudo e o aluno apenas assiste pode até impressionar pela eloquência, mas não produz aprendizado profundo. O interesse geralmente está nas dúvidas, e estas são tiradas na participação do aluno.
Fale a língua do seu aluno
Ensinar bem também exige sensibilidade com a linguagem, pois a verdade bíblica não chega ao coração do aluno no vácuo e sim por meio de palavras. E, se a linguagem usada em sala for distante, artificial ou carregada de jargões que a classe não compreende, a comunicação fica comprometida.
No início da minha carreira ministerial, quando ainda exercia a função de auxiliar, participei de um Encontro de Escola Dominical. O orador era um homem de renome, com uma impressionante formação bíblica e acadêmica. No decorrer de sua fala, ele mencionou um “propedêutico”. A palavra me pareceu bela e refinada, então a escrevi na borda da revista. No entanto, eu não tinha a mínima noção do que aquilo significava — e estou convencido de que a maioria das pessoas presentes também não sabia.
Ele se expressava de maneira elegante e possuía uma eloquência admirável, mas grande parte da aula era de difícil compreensão. O discurso estava perfeito, mas o ensino foi um desastre, pois quase ninguém aprendeu nada.
Por isso, o professor precisa conhecer o seu público, não basta dominar o conteúdo, é preciso saber com quem se está falando. Uma classe de adolescentes não ouve da mesma forma que uma classe de novos convertidos. Um grupo de adultos não traz as mesmas referências de uma turma infantil. Mesmo entre crentes maduros, há diferenças de repertório, de formação, de vivência e de linguagem, e ignorar isso é ensinar sem considerar quem está ouvindo. Elmer Towns resume bem essa responsabilidade ao dizer:
“O professor que deseja ensinar com êxito precisa conhecer três coisas em profundidade: a Palavra de Deus, o aluno a quem ensina, e os métodos adequados para unir a Palavra ao coração desse aluno.” (TOWNS, 2011, p. 37)
Adequar a linguagem, portanto, não significa empobrecer a doutrina, mas sim traduzi-la com clareza. Há professores que confundem profundidade com complexidade verbal, pois falam difícil, acumulam expressões técnicas, recorrem a termos pouco familiares e, no fim, produzem mais distância do que entendimento. O professor da EBD não está ali para impressionar a classe com vocabulário, está sim para comunicar a verdade de forma fiel e compreensível.
Isso também explica por que o uso de recursos variados pode ser tão útil, pois nem todo aluno aprende do mesmo jeito. Alguns assimilam melhor ouvindo; outros, vendo; outros, participando. Uma boa ilustração, uma pergunta bem feita, um quadro, um esquema, uma dinâmica simples ou uma recapitulação visual podem ajudar muito mais do que longas explicações abstratas.
Ensine o desconhecido a partir do conhecido
Outro princípio importante no ensino é este: o aluno aprende melhor quando o novo se conecta com algo que ele já conhece. A mente não trabalha no vazio e quando uma verdade nova é apresentada sem nenhuma ponte com a experiência, com o conhecimento prévio do aluno, ela tende a ficar solta e difícil de ser assimilada.
Por isso, o professor precisa construir essas pontes. Precisa conectar a mente do aluno na realidade sobre o princípio bíblico que ele quer ensinar. Um conceito doutrinário mais complexo pode ser introduzido por meio de uma situação concreta, de uma analogia simples ou até de uma recapitulação da lição anterior. O importante é não apresentar a verdade bíblica como se ela estivesse suspensa num universo distante da vida do aluno. É imprescindível relacionarmos o novo conteúdo com a história e com as experiências do aluno. Quando isso acontece, o ensino ganha coerência e deixa de parecer uma sequência de informações desconectadas (GRIGGS, 2015, p. 48).
Na prática da EBD, isso significa que o professor precisa pensar em como aproximar o texto da vida. Uma aula sobre justificação, santificação, providência ou perseverança dos santos não precisa começar no nível mais técnico do assunto. Ela pode começar por uma pergunta, uma situação, uma dificuldade real da vida cristã, e a partir daí, o professor conduz a classe à verdade bíblica com mais coerência com a realidade.
O caminho para um ensino transformador
Quando olhamos para esses princípios em conjunto, fica claro que a excelência na Escola Bíblica Dominical não surge por acaso. Ela é fruto de preparo, de intencionalidade, de dependência de Deus e de compromisso com o ensino da Palavra de Deus. Não basta apenas amar a Bíblia, é preciso se dedicar à tarefa de ensiná-la bem. Não basta ter boa vontade, é preciso cultivar disciplina, sensibilidade e responsabilidade diante da classe. E quando a EBD se torna fria, desinteressante ou vazia, nem sempre o problema está apenas na cultura do tempo presente ou na falta de interesse das pessoas. Muitas vezes há falhas no próprio processo de ensino. Falta preparo, falta objetivo, falta clareza, falta participação, falta conexão entre a verdade ensinada e a vida de quem ouve.
Manejar bem a Palavra de Deus na Escola Dominical exige do professor a consciência de que ele coopera com uma obra que é espiritual, mas que se realiza também por meios humanos. A técnica de ensino não substitui a ação do Espírito Santo, e ninguém está afirmando isso, mas desprezar os meios técnicos necessários para ensinar com excelência também não demonstra espiritualidade. O professor que ora, estuda, se prepara e ensina com fidelidade não está competindo com o Espírito, está se colocando justamente na dependência de Deus, com humildade, a serviço da verdade que proclama.
Pr. Anderson Fábio da Silva
Master of Theology (Th.M.) pela University Christian American (Florida/EUA) em parceria com seu mestrado ministerial (Livre) pela FATEB-BA, é pós-graduado em Arminianismo pelo Seminário Batista Livre (SBL-SP). Com mais de 20 anos de dedicação ao ensino teológico, consolidou sua experiência como professor nos níveis Básico e Médio do Curso EPOS (Escola Preparatória para Obreiros Siloé) por 15 anos, promovido pela Faculdade Refidim. Aplicado na Teologia Sistemática, Teologia Pentecostal e na soteriologia Arminiana, atua como palestrante e articulista, focando na capacitação de lideranças, no aperfeiçoamento pedagógico de professores e no ministério da igreja local. É pastor auxiliar na IEADJO. Faz parte da diretoria da EBD-IEADJO na área de mídias. Atua como professor das pré-aulas do Canal IEADJO EBD no Youtube, lecionando tanto para jovens como para adultos. Casado com Paola Budal há 25 anos, é pai do Arthur e do Nathan.
Referências Bibliográficas
GRIGGS, Donald L. Manual do professor eficaz: um excelente guia com ideias criativas sobre a arte e a prática do ensino. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.
HENDRICKS, Howard. Ensinando para transformar vidas. Venda Nova: Betânia, 1991.
PEARLMAN, Myer. Ensinando com êxito na Escola Dominical. Miami: Editora Vida, 1995.
TOWNS, Elmer L. O que todo professor de Escola Dominical deve saber. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.